Rocky e Hudson e Outras Histórias

O cartunista Adão Iturrusgarai criou o casal formado por dois caubóis gays muito antes do sucesso do filme o Segredo de Brokeback Mountain. Sem pudores, suas tiras brincam com estereótipos, com o preconceito e diversas combinações sexuais. Este livro, lançado em 2004 pela Editora Devir, traz uma coleção de tiras e histórias com estes dois.

Apesar de tudo, os personagens Rocky e Hudson não são unanimidade entre gays, embora já tenham sido publicados em veículos especializados como a extinta revista Sui Generis. Particularmente, gosto dos quadrinhos e vejo um bom trabalho de um autor não-homossexual em incluir elementos da cultura gay no texto de suas tiras.

Como cartoons frequentemente lidam com figuras baseadas em estereótipos, por conta do pouco espaço para desenvolver personagens, isso pode incomodar quem busca uma representação complexa e profunda. Os caubóis de Adão são libertinos e bastante sexualizados, por exemplo, mas isto é uma características de muitos personagens do universo do autor, como por exemplo sua personagem Aline e seus dois namorados, e não uma visão preconceituosa dos gays.

Infelizmente este é o único livro publicado pela Devir em que esta dupla está capa e mesmo assim não é exclusivamente dedicado a ela. Felizmente todos os outros personagens de Adão são interessantes e seu humor nunca se esquiva de tocar nos tabus da sexualidade.


Blog do Adão Iturrusgarai

Site do Adão Iturrusgarai (Seção com tiras de Rocky e Hudson)

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      Fun Home: Uma tragicomédia em Família

      Alison Bechdel escreveu um livro incomum num gênero pouquíssimo explorado:  sua obra pertence a um gênero já chamado por alguns de graphic memoir que seria uma Graphic Novel (o romance em forma de quadrinhos, este próprio um produto desconhecido do grande público) mas com o diferencial de possuir um conteúdo autobiográfico. Se a ousadia na forma do trabalho não é mérito suficiente, a sensibilidade e honestidade com que ela desnuda sua infância e seu relacionamento com o pai explicam muito bem o prêmio Eisner Award de 2007 e a eleição como o melhor livro de 2006 pela Revista Time.

      Fun Home, apelido dado por ela e seus irmãos a funerária e casa onde moravam, trata da investigação e reconciliação com a figura ambígua de seu pai que morreu sob a suspeita de ter cometido suicídio. Alison, que eventualmente acaba por descobrir-se lésbica na adolescência, se defronta com a realidade da homossexualidade ocultada por seu pai e das repercussões de eventos do passado que só serão perfeitamente compreendidos muitos anos depois.  Na verdade é possível perceber que é no próprio livro que esta conciliação se materializa e é colocada em ordenada. Bechdel não nos entrega uma conclusão, e neste caso a forma de composição do livro é metáfora perfeita para o seu processo criativo: é em cada traço de sua arte que se delinea a figura do pai e os laços com o passado são refeitos.  A narrativa nem sempre é precisa, ou linear, como a memória que Bechdel quer dar sentido.

      Os prêmios do livro garantiram a produção de uma edição brasileira bem como um certo destaque na mídia que é incomum para estas publicações (seja pelo formato em quadrinhos, seja pelo tema da homossexualidade). O próprio trabalho de Alison com suas tiras Dykes to Watch Out for, embora já fosse internacionalmente conhecido, costumava ser circunscrito aos jornais alternativos. É bom ver as barreiras culturais serem transpostas e obras como essa ganharem espaço pelo seu significado universal e qualidade.

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